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Vou te contar um pouco sobre ela. O suficiente pra que você a queira sempre por perto.
Ela é diferente de todas as outras, mas não diferente estranho, embora ela tenha algumas manias estranhas. Ela não tem aqueles três sorrisos, ou aquele olhar marcante, ela não vai te surpreender com nada, e nem esperar muito de você, ela espera pouco dela, desde as atitudes a tudo que envolva outra pessoa. Ela não vai dedicar musicas pra você, ou te chamar dos apelidos carinhosos, que dão embrulho no estômago, ou ver aquele filme meloso e dizer - Lembrei de você - não espere isso vindo dela. Ela é medrosa, tem medo de fantasmas e do escuro, e não suporta que falem nada que a deixe assustada, mesmo vindo da voz que sempre a acalma. Nela você vai encontrar todos os defeitos do mundo, e todas as manias mais irritantes possíveis, vai querer que ela pare de falar por inúmeras vezes, mas logo vai estar sorrindo só de ouvir as histórias que ela tem pra contar, dos amores que ela quer viver, e do futuro que mesmo incerto, ela escolheu pra ela. Nela você também encontrará muitas qualidades, as melhores possíveis, não aquelas que você encontra em qualquer uma por ai, em qualquer garotinha carente, que só quer um pouco de atenção, colo e carinho. Ela vai querer sim atenção ao longo do dia, e querer escutar sua voz antes de dormir, e vai negar de pés juntos, jurar que só ligou porque, estava sem sono mesmo. Mas preste atenção, e cuide dela. Ela não pode beber, porque fica mais alegre do que ja é. E se quiser conquista-lá pela barriga, compre algumas algas e salmão, e prepare uns bons sushis, ela vai sorrir, e dizer que é a coisa mais horrível que ela já comeu, e que você não sabe fazer direito, tudo isso só pra te irritar. Preste atenção nela quando ela quiser carinho, ou quando estiver carente, não precisa de muita coisa, basta falar com ela, fazer ela sorrir, e dizer coisas safadas e carinhosas. Essa garota não é igual a nenhuma outra que você já conheceu, ou venha a conhecer, e sem essa de - mas ninguém é igual a ninguém - porque todas as outras querem ser como ela. Se você a fizer gargalhar pode ter certeza de que começou certo, e o som da risada dela é o mais gostoso de se ouvir, embora ela tenha uma voz fina que as vezes da sono de escutar. Ela ama contar como foi o dia dela, e o que vai fazer daqui a 2, 3 anos. Ela vai te xingar, implicar, fazer qualquer coisa pra chamar a sua atenção, e se você não perceber, ela irá continuar até você notar. Ela é alegre, brava, carinhosa, sarcástica, um poço de sentimentos. E se um dia vocês a verem caminhando por ai, digam a ela que os seus melhores sorrisos estão comigo.

Junior Araujo - CL69  (via com-versos)


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Augustus Waters. - Carta para Hazel Grace.

Van Houten,

Sou uma pessoa boa, mas um escritor de merda. Você é uma pessoa de merda, mas um bom escritor. Nós formaríamos uma bela equipe. Não quero lhe pedir nenhum favor, mas, se tiver tempo — e pelo que vi, você tem tempo de sobra —, fiquei me perguntando se poderia escrever um elogio fúnebre para a Hazel. Tenho algumas anotações e tudo mais, mas se você pudesse transformá-las num texto completo e coerente, e tal… Ou então só me dizer o que eu deveria escrever de forma diferente.

O bom da Hazel é o seguinte: quase todo mundo é obcecado por deixar uma marca no mundo. Transmitir um legado. Sobreviver à morte. Todos queremos ser lembrados. Eu também.

É isso o que me incomoda mais, ser mais uma vítima esquecida na guerra milenar e inglória contra a doença.

Eu quero deixar uma marca.

Mas, Van Houten: as marcas que os seres humanos deixam são, com frequência, cicatrizes. Você constrói um shopping center medonho ou dá um golpe de Estado ou tenta se tornar um astro do rock e pensa: ‚Eles vão se lembrar de mim agora‛, mas: (a) eles não se lembram de você, e (b) tudo o que você deixa para trás são mais cicatrizes. Seu golpe de Estado se transforma numa ditadura. Seu shopping center acaba dando prejuízo.

(Tá, talvez eu não seja um escritor tão de merda assim. Mas não consigo organizar minhas ideias, Van Houten. Meus pensamentos são estrelas que eu não consigo arrumar em constelações.)

Nós somos como um bando de cães mijando em hidrantes. Nós envenenamos as águas subterrâneas com nosso mijo tóxico, marcando tudo como MEU numa tentativa ridícula de sobreviver à morte. Eu não consigo parar de mijar em hidrantes. Sei que é tolice e inútil — epicamente inútil em meu estado atual —, mas sou um animal como qualquer outro.

A Hazel é diferente. Ela anda suavemente, meu velho. Ela anda suavemente sobre a Terra. A Hazel sabe qual é a verdade: é tão provável que nós consigamos ferir o universo quanto é provável que nós o ajudemos, e é improvável que façamos qualquer uma dessas duas coisas.

As pessoas vão dizer que é triste o fato de ela deixar uma cicatriz menor, que menos pessoas se lembrem dela, que ela tenha sido muito amada mas não por muita gente. Mas isso não é triste, Van Houten. É triunfante. É heroico. Não é esse o verdadeiro heroísmo? Como dizem os médicos: em primeiro lugar, não cause dano ou mal a alguém.

Os verdadeiros heróis, no fim das contas, não são as pessoas que realizam certas coisas; os verdadeiros heróis são as que REPARAM nas coisas. O cara que inventou a vacina contra varíola não inventou nada, na verdade. Ele só reparou que as pessoas que tinham varíola bovina não pegavam varíola.

Depois que a minha tomografia acendeu como uma árvore de natal, eu entrei furtivamente na UTI e vi a Hazel quando ainda estava inconsciente. Entrei andando atrás de uma enfermeira de crachá e consegui me sentar ao lado da Hazel por, tipo, uns dez minutos antes de ser pego. Eu realmente achei que ela fosse morrer antes que eu pudesse lhe contar que também ia morrer. Foi brutal: o arengar mecanizado incessante da terapia intensiva. Havia uma água cancerosa escura pingando do peito dela. Os olhos fechados. Entubada. Mas a mão dela ainda era a mão dela, ainda quente, as unhas pintadas de um azul-escuro quase preto, e eu simplesmente segurei sua mão e tentei imaginar o mundo sem nós, e por mais ou menos um segundo fui uma pessoa boa o suficiente para torcer que ela morresse e nunca ficasse sabendo que eu também ia morrer. Mas aí eu quis mais tempo para que pudéssemos nos apaixonar. Creio que meu desejo foi realizado. Eu deixei a minha cicatriz.

Um enfermeiro chegou e me disse que eu precisava me retirar, que visitas não eram permitidas, e eu perguntei se ela estava melhorando. O cara disse: “Ela ainda está fazendo água.” Bênção do deserto, maldição do oceano

O que mais? Ela é tão linda! Não me canso de olhar para ela. Não me preocupo se ela é mais inteligente que eu: sei que é. É engraçada sem nunca ser má. Eu a amo. Sou muito sortudo por amá-la, Van Houten. Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, meu velho, mas é possível escolher quem vai feri-lo. Eu aceito as minhas escolhas. Espero que a Hazel aceite as dela.

Augustus Waters.